Técnicos compram aquecedores. Clientes compram Aquecimento.
- Ney Bedin - CMO

- 8 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

Será que dá para aplicar a disciplina do "Faça Você Mesmo” em sistemas de aquecimento solar de água? Teoricamente sim, mas na prática é de uma bravura quase comovente, não é? A ideia de que podemos simplesmente vasculhar a vastidão da internet, pinçar o boiler mais em conta aqui, o coletor solar com o preço mais irresistível acolá, e magicamente criar um sistema de aquecimento de água que funcione é de uma inocência surreal, que pode sair muito cara. É o equivalente moderno de tentar montar um motor de carro comprando peças aleatórias em um ferro-velho, mas com a convicção de que o vendedor do Mercado Livre, por algum milagre, garante a compatibilidade e a performance (como ele faria isto? Ele não tem compromisso algum com o projeto arquitetônico da sua casa!).
E quando a ousadia é terceirizada? As empresas que abraçam essa filosofia da pechincha, montando um "Sistema Frankenstein" de componentes desconexos, merecem um prêmio de otimismo. Elas acreditam piamente que a termodinâmica e a hidráulica se renderão aos encantos do menor preço. Afinal, para que se preocupar com um projeto completo, íntegro e dimensionado por uma equipe realmente certificada e ciente do desafio, quando se pode ter o quase bom, o quase quente, o quase certo?
A grande vantagem de ter um sistema dimensionado é, obviamente, o fato de ele simplesmente funcionar. Ele foi concebido para entregar água quente o suficiente, na temperatura correta, sem exigir que você faça um calendário de banhos ou sorteie senhas para quem vai tomar banho primeiro. Ao optar por um projeto inteiro, você evita a dança patética das desculpas esfarrapadas quando o sistema, previsivelmente, falha.
No Brasil, essa aventura ganha cores ainda mais dramáticas. A instalação "simples" é uma miragem no deserto da construção civil nacional. É quase um hobby construir casas, até mesmo as ditas "alto-padrão", sem a menor previsão para um sistema de aquecimento central. Sem casa de máquinas, sem espaço decente para o boiler, e, o ápice da engenhosidade, sem as linhas de encanamento de água quente. Então, o projeto se torna um exercício de contorcionismo, exigindo que se crie um sistema que não apenas aqueça a água, mas também se integre a uma estrutura que ativamente rejeita sua existência. Então, os desafios naturais normais do cenário brasileiro já exigem, de saída, a vinda de um especialista certificado e responsável (no caso, que se possa responsabilizar).
O cenário é de uma comédia de erros com um final morno. É fascinante observar a perpetuação da nossa intrépida Lei de Gérson (o ato de levar vantagem em tudo, independentemente de preceitos éticos ou morais), um pilar estrutural e cultural que, quando aplicado à engenharia térmica, resulta em “vários nadas” e muita dor-de-cabeça e dinheiro jogado fora.
A jornada começa com a crença ingênua de que a integração sistêmica (a forma como todos os componentes, do coletor solar ao boiler, trabalham juntos de forma eficiente) pode ser ignorada em nome de uma economia duvidosa. O cliente, imbuído do espírito de ser um Engenheiro de Compras Low-Cost, busca a Otimização de Custos, comprando cada componente pelo menor preço da internet: um coletor solar (a placa que absorve a energia solar) de um fabricante, um reservatório térmico (o boiler, o tanque isolado que armazena a água quente) de outro, e um controlador de temperatura (o termostato ou sensor) de um terceiro. A expectativa? Um desempenho digno de um sistema com eficiência energética (a proporção entre a energia fornecida e o calor útil entregue) máxima. A realidade? Um sistema com perda térmica (o calor que se dissipa para o ambiente) estratosférica e um rendimento sazonal (a performance do sistema ao longo das estações do ano) de fazer chorar.
O Vício Nacional da Improvisação
Aqui entra o fator cultural. Nossos sistemas de aquecimento solar de água (SAS) chegaram ao Brasil com alguma relevância nas décadas de 1970, atingiram alguma maturidade nos anos 90 e hoje são escolha quase unânime entre clientes de alto-padrão. No entanto, a formação técnica especializada levou um tempo dramaticamente maior para se estabelecer. Os cursos técnicos para instaladores de aquecimento solar, como os oferecidos pelo SENAI, só foram se consolidar e expandir de maneira mais séria e padronizada depois de 2010 (cabendo aos fabricantes ministrarem treinamentos de produtos - de apenas seus produtos, no caso, até então). Isso criou um vácuo de décadas, preenchido pelo instalador que opera pelo "feeling" e o famoso "jeitinho".
Este profissional, muitas vezes vítima do Efeito Dunning-Kruger (a tendência de indivíduos com pouca expertise superestimarem sua própria competência), aborda o aquecimento de água com uma arrogância epistêmica (a convicção de que se sabe mais do que realmente se sabe). Ele ignora alegremente conceitos como vazão e pressão diferencial (a diferença de pressão necessária para a água circular corretamente), o cálculo do fator de insolação (a quantidade de radiação solar incidente na área) ou a correta inclinação e orientação do coletor para maximizar a captação fototérmica (a conversão da luz solar em calor). O resultado é uma subdimensionamento crônico do sistema, que não suporta a demanda hídrica de pico (o momento de maior consumo de água quente).
A Dança das Desculpas e a Carga Ocupacional
Quando este "Sistema de Baixa Performance" entra em mal-funcionamento, as desculpas são dignas de um sketch de comédia. A culpa nunca é do Projeto Hidrotérmico que nunca existiu. A água não está quente porque a dureza da água (a concentração de minerais como cálcio e magnésio, que podem formar incrustações) é muito alta, ou porque o usuário excede o turnover do boiler (a taxa com que toda a água quente é substituída por fria). “O boiler não tem culpa se na sua casa tomaram mais de dois banhos seguidos!”
E, para fechar o ciclo de riscos, temos a questão da Responsabilidade Civil Objetiva do contratante. Ao empregar mão de obra informal que não cumpre as Normas Regulamentadoras (NRs), como por exemplo, a NR 35 para trabalho em altura, o contratante pessoa física assume o risco ocupacional. Afinal, o que é um aquecimento morno comparado ao risco de se tornar réu em um processo por acidente de trabalho?
Escolha a Segurança e a Performance
É hora de desarmar a ironia e falar com a seriedade que o seu investimento merece. Você, como consumidor, não precisa fazer um curso de termodinâmica ou dominar o cálculo de delta T (a variação de temperatura desejada) para comprar um sistema de aquecimento de água solar.
Ney Bedin - Marketing & Qualidade - GL Tech Heating







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